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Crónica da Grécia do dia 8 de Janeiro de 2009, por José Soeiro
Apagaram tudo?
Chegados
ao Politécnico de Atenas, o centro da contestação estudantil e o sítio onde
vigora a lei do asilo (a policia está impedida pela Constituição de lá entrar
sob qualquer circunstância), encontramos as paredes a serem pintadas. Dois
trabalhadores tapavam com tinta branca um graffiti: "Fuck the
police". A repressão policial é uma das questões principais da
mobilização. Desde a ditadura militar que há uma forte cultura anti-autoritária
neste país. Os partidos do poder – PASOK e Nova Democracia – têm feito promessas
sucessivas de "democratização da polícia". Mas ela nunca aconteceu
verdadeiramente: a polícia continua conotada com a extrema-direita e com uma
repressão violenta. A Amnistia Internacional considerou a Grécia um dos piores
países europeus no que diz respeito à violência policial. E antes dos Jogos
Olímpicos de 2004, uma série de leis "anti-terroristas" reforçaram o
poder e a arbitrariedade da acção policial. Os jovens e os imigrantes são,
naturalmente, os primeiros alvos desta repressão. Não apenas nas manifestações,
mas no dia-a-dia: identificação de pessoas, violência nas esquadras, etc.... Em
Exarchia, bairro central da contestação e onde se situa o Politécnico, a
policia é uma presença constante.
"Só Deus escolhe quem morre"
Ninguém
esquece a morte do jovem Alexis Grigoropoulos. Um outro Alexis, desta feita
Kougias e advogado do policia que assassinou o adolescente, disse na televisão,
a seguir ao assassinato, que "só Deus escolhe quem morre e quem vive"
e que "o Tribunal é que vai decidir se ele merecia morrer ou não". Em
quatro dias, um grupo criado no Facebook, cujo título era "Fuck Alexis
Kougias" reuniu 90 mil membros. A net é um ponto de encontro – e um lugar
de mobilização na revolta de Atenas.
"Portuguese comrades!"
No
Politécnico, não apagaram tudo. Nas paredes, há graffitis, inscrições,
cartazes, manifestos. No terceiro andar decorre uma assembleia aberta,
promovida pelos professores da escola, onde alunos e docentes discutem o futuro
do movimento. Centena e meia de pessoas apinham-se na sala. Cá fora, umas
dezenas aguardam lugar. Para quem só conhece as faculdades portuguesas, a cena
é inimaginável. O presidente da escola coloca a questão em termos de
"preservar a democracia ou a escola" e contesta-se que o direito de
asilo sirva para proteger "anarquistas que vêm de fora". Há quem
contrarie e argumente que "mais vale perder uns dias de aulas do que
perder a democracia". De repente, dão pela nossa presença e sobretudo pelo
flash da nossa máquina. O director, aparentemente chateado, pergunta, em grego
e depois em inglês: "Quem são vocês? Jornalistas?". A nossa resposta
é pronta: "Portuguese comrades!". A assembleia ri, cúmplice. A
discussão continua.
Tomar a Palavra
À
tarde, nova assembleia. Um anfiteatro enche-se com centenas de estudantes. É
uma assembleia da escola de arquitectura, uma das 9 que compõem o politécnico.
As intervenções serão feitas pela ordem de representatividade das correntes
politicas estudantis. Começa uma rapariga da EAAK, maioritária naquela
faculdade, que junta grupos da esquerda não-parlamentar. Seguir-se-á o
representante da organização de estudantes comunistas e depois o da União de
Esquerda, corrente da esquerda radical que se agrupa na Syriza. As pessoas
tomam a palavra sem microfone, as discussões são exaltadas. A escola é um lugar
de debate do mundo e dos seus caminhos. O plenário dura horas e no fim a
maioria decide que sexta-feira a ocupação será retomada.
Imagens do Movimento
O
primeiro ponto da assembleia fomos nós. Ou seja, se os estudantes concordavam
que filmássemos a discussão. Explicamos às centenas de estudantes a questão: a
imagem que a imprensa internacional passa da revolta grega são os carros a
arder e montras partidas. E dizemos que queremos que existam outras imagens e
outros registos para além da caricatura que o poder quer fazer: pessoas
envolvidas na discussão colectiva do seu futuro e determinadas em deitar as
mãos à história em vez de esperar ela seja uma monótona repetição do presente.
A assembleia aplaude. Mas há um grupo de cinco anarquistas que contesta: dizem
que não querem aparecer na televisão e que as imagens podem ser mal utilizadas.
Explicamos que já aparecem nas tv's, mas como animais. E que a questão é se os
media do sistema devem ter o monopólio da representação do movimento. Não
convencido, o grupo de anarquistas exerce o direito de veto. Assim, não pudemos
filmar a assembleia. É pena, porque aquelas imagens mereciam ser vistas. Dizem
muito mais sobre o que se passa do que qualquer montra partida.
9 de Janeiro: memória e futuro
9
de Janeiro é sexta-feira. Faz 18 anos, um movimento estudantil poderoso ocupava
as escolas gregas. Em Patras, Nikos Temponeras, professor do ensino secundário
solidário com os estudantes, defendia a ocupação da sua escola. Foi morto,
espancado com uma barra de metal por um grupo de estudantes de direita, membros
da Nova Democracia. Esta sexta-feira, a manifestação lembrará o crime passado
em nome do presente e do futuro.
KKE: partido da ordem?
O
KKE – Partido Comunista Grego é provavelmente o mais ortodoxo dos PC's
europeus. Para o KKE não houve nem há nenhuma revolta. Nem os 50 mil jovens que
se manifestaram no dia 8 de Dezembro foram suficientes. Este partido considera
a revolta como uma acção de "provocadores". Reunido com o
primeiro-ministro, apelou à paz social e atirou-se à coligação da esquerda
radical: "a liderança da Syriza deve deixar de proteger os
revoltosos". Na assembleia de hoje, os estudantes perguntavam aos seus
colegas do KKE por que estiveram ausentes das reuniões durante o movimento. Só
tiveram o silêncio como resposta.
Vá para fora cá dentro
Hoje,
houve remodelação governamental. O novo ministro da educação do governo da
direita é o antigo ministro do turismo do mesmo governo.
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