Diário de Atenas /3 Imprimir e-mail
Crónica da Grécia do dia 9 de Janeiro de 2009, por José Soeiro.

 

Terrorismo

Na Grécia, como em Portugal, a maior parte das pessoas que fazem limpezas trabalha para agências de trabalho temporário, que alugam mão-de-obra a outras empresas. Há um sindicato que organiza estes trabalhadores, a maioria mulheres: o sindicato ateniense de trabalhadores da limpeza e empregadas domésticas. Constantina Couneva é uma das mais militantes activistas desse sindicato – e portanto detestada pelos patrões do sector. Dois dias antes do Natal, foi atacada violentamente com ácido sulfúrico à entrada de casa. Não se identificaram ainda os agressores, mas toda a gente sabe que os empresários a odiavam. Diz-se que a justiça grega nada fará. Já passaram duas semanas e Constantina continua hospitalizada. Ao contrário do polícia alvejado, não teve milhares à porta, nem a solidariedade "consternada" do governo, nem a visita da Igreja, nem notícias nos jornais gregos nem meia página do Público.

 

"Fuck Mai 68. Fight Now!"

As assembleias gregas lembram as imagens do Maio francês. Não que não tenha havido outros Maios e outros PRECs. Mas Paris faz mais parte do imaginário colectivo, porque há mais registos e pôde ser vendido com a imagem romântica de uma revolução derrotada e com a saudade paternalista de quem, "no seu tempo", acreditou que havia praia debaixo dos paralelos da rua. Acontece que a realidade é outra. O desemprego entre os jovens gregos (dos 15 aos 24 anos) era, no último semestre de 2008, de 21,4%, o maior da Europa. 70% dos jovens gregos que trabalham recebe menos que 750 euros por mês. O salário médio é hoje menor do que era em 1984, em termos relativos. E comparando os anos 80 com 2007, a distribuição de rendimento entre capital e trabalho desequilibrou-se em favor do primeiro: de 58% para 44%. Adianta pouco lembrar 68. A nossa geração, na Grécia ou em Portugal, é a primeira que sabe que viverá pior que os seus pais.

 

Provocações

Nas Assembleias de faculdade, que juntam centenas de estudantes em cada escola, um cartaz do KKE espalhado por todas as paredes tem a imagem de um jovem, de balas e de sangue. Poderia lembrar Alexis, o adolescente grego assassinado pela polícia. Mas não. É um cartaz sobre a Palestina. Nas quatro assembleias de hoje no Politécnico, foram aprovadas resoluções (da EAAK, da Aristeri Enotita e de outras correntes politicas estudantis) em que se apela à manifestação de amanhã, contra o Governo e a brutalidade policial. E em que se decide, sem que ninguém seja contra, pela participação na manif de sábado, contra o massacre em Gaza. O KKE está contra. Não concorda com as ocupações que ficaram decididas. Fará amanhã uma manifestação noutro local, só sobre a Palestina. E condenou a maioria das assembleias por não terem objectivos e por estarem a incentivar os "provocadores". Da assembleia, no meio da desordem, alguém lhes perguntou: "e os que atiram pedras em Gaza, não são provocadores também?"

 

Ordem de Trabalhos

À porta da Assembleia Geral, pergunto a uma rapariga o que se está a discutir, qual é o tema. "Tudo. O que se discute é toda a sociedade".


 
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