“Para os Bancos dinheiro, para a juventude balas. Chegou o nosso tempo”
São milhares de pessoas que se vão
concentrando em frente à Universidade. Um mar de gente. Na manifestação de
hoje, há estudantes universitários. E há sindicalistas. Os professores – do
ensino primário, do secundário e do superior – marcam presença com faixas
próprias e o sindicato da Função Pública marcou greve para hoje. Mas a maior
parte da manifestação que ocupou as ruas de Atenas é gente muito mais nova:
centenas, milhares de jovens de 13, 14, 15, 16 anos. Têm a mesma idade de Alexis,
o colega deles que a polícia matou.
Homens a sério?
Na cabeça da manif, vai o pessoal do
Politécnico. É lá que têm acontecido os principais protestos e ocupações. É
considerada a escola mais radicalizada à esquerda. Foram lá as principais
assembleias, com centenas de estudantes, homens e mulheres a tomar a palavra
para mudar a vida. Mas hoje quem vai à frente é uma fileira só de homens. Só homens que
seguem alinhados, de escuro, com paus nas mãos e marcham ordenadamente ao som
de músicas de parada militar.
“A nossa raiva transborda”
Acabada a manif, a maioria das
pessoas vem embora. A polícia, estrategicamente colocada por todas a ruas,
cerca os manifestantes que ficaram no final, sobretudo anarquistas. Há algumas
dezenas de pessoas que se protegem dentro de um mini-mercado, situado em frente
a um hospital A polícia começa a deitar gás pimenta na rua e para o mercado. O
dono da mercado está do lado dos manifestantes que se protegem da polícia. Os advogados
que trabalham com o movimento tentam comunicar com os jovens. Do hospital, há
médicos que saem para socorrer os manifestantes. A polícia detém toda a gente e
distribui porrada por quem passa. Até a um dos doentes que sai do hospital. Os
manifestantes cercam a carrinha da polícia onde entretanto estão os detidos.
Liberdade
As ruas transformam-se em campo de
batalha. Caixotes a arder, pedras pelo ar. Junto ao fumo, o efeito do gás
lacrimogéneo é atenuado. Manifestantes, médicos e advogados detidos são levados
para a sede da polícia. A convocação de nova acção é imediata. Em meia hora,
mobilizam-se centenas de pessoas: serão cerca de mil os que se concentram
pacificamente em protesto frente à sede geral da Polícia. Mais gás lacrimogéneo
obriga as pessoas a correr. A polícia aproveita para dividir a concentração. As
pessoas não desistem. Ficam a cantar e a dizer palavras de ordem. Liberdade!
Não arredam pé até os detidos serem libertados.
Definição de violência
Constatina Couneva continua no hospital.
Hoje foi lembrada na manif. Mulher, imigrante búlgara na Grécia, empregada de
limpeza, precária a part-time, Constantina tinha todas as condições para se
calar. Mas não. Fundou um sindicato único nas condições mais difíceis. Num
sector marcado pelo abuso, onde os patrões se aproveitam do isolamento, do
trabalho clandestino, onde as agências de trabalho temporário extorquem os
trabalhadores, ela e as suas companheiras tiveram a coragem da dignidade. A
Confederação Sindical Grega, que é única e hegemonizada pelo PASOK (o partido
socialista grego, um dos que alterna no poder) nunca apoiou a sério o
sindicato. Desde que ela foi hospitalizada, depois de ter sido atacada com
ácido sulfúrico em Dezembro, no regresso a casa, a confederação não teve um
acto de solidariedade que se visse. Constantina só contou com o apoio empenhado
dos estudantes, dos anarquistas e de algumas organizações da esquerda. Sabe-se
que, por causa do ácido, já não vê de um olho e não consegue falar. Os patrões
nunca toleraram que os precários pudessem ter uma voz.