Crónica da Grécia do dia 11 de Janeiro de 2009, por José Soeiro.
“Não temos medo dos despedimentos. Os patrões devem ter medo das greves selvagens”
Escrevo do Sindicato dos Jornalistas, onde há net. É o sindicato único do sector, com uma direcção de direita. Acaba de ser ocupado. No terceiro andar, o auditório junta cerca de duzentas pessoas em assembleia. No comunicado dos ocupantes, jornalistas precários, afirmam-se três reivindicações: o direito a dar informação verdadeira sobre os acontecimentos, contra a manipulação do poder e dos patrões dos órgãos de comunicação social; a solidariedade com Constantina Couneva, a sindicalista precária vítima de um ataque com ácido sulfúrico; a luta contra a precariedade instalada no sector.
Ordem para abater
Pela televisão que está ligada no bar do sindicato, o Governo avisa que polícia vai endurecer a reacção. Na sequência da batalha de ontem, o tema dos telejornais é o fim do asilo de que goza a Universidade – um direito do maior simbolismo numa sociedade que assistiu à repressão e ao esmagamento dos protestos no Politécnico pela ditadura dos coronéis.
Qualquer semelhança com a (nossa) realidade não é pura coincidência
1 em cada 5 jovens gregos está desempregado. 5 a 7 anos depois da sua graduação, os jovens gregos têm maioritariamente empregos precários. 20% com contratos temporários, outros 20% a trabalhar como isolados (o equivalente aos recibos verdes) e sem direitos sociais. Muitos trabalham em áreas totalmente diferentes das dos seus estudos e em tarefas para as quais estão sobrequalificados. Cerca de 300 mil trabalham em estágios pagos pela União Europeia: as empresas não gastam um euro com eles, o tempo de trabalho não conta para a segurança social e ganham 470 euros por mês. O Estado é um dos mais activos empregadores de precários: em 2007, só 30% dos novos trabalhadores no sector público tinha contrato permanente, sendo a maioria trabalhadores temporários. A inspecção do trabalho não actua e diz-nos um sindicalista que se tiver 100 inspectores para todo o país será já muito...
Lá vêm os radicais de esquerda...
“Os nossos jovens não estão revoltados por nada. A juventude não só sente as limitações do presente que nós – os seus pais naturais ou institucionais – lhes damos, mas também protestam pelo roubo e pela destruição do seu futuro (...) A resposta para todos os problemas com que a juventude se confronta não é a aceitação do vandalismo. Mas também não é a repressão de qualquer protesto. O protesto é uma necessidade e um direito”.
A frase não é de nenhum “esquerdista”. Nem de nenhum “intelectual radical” alimentado pelo “ódio à democracia liberal” ou por “tentações totalitárias”. Nem de nenhum “irresponsável” sempre disposto a “legitimar a violência” dos protestos. Nem de nenhum “sociólogo” sempre disponível para “compreender as razões” do fenómeno e atribuir a causa das coisas à sociedade e às escolhas políticas e económicas. Não. É uma declaração pública de Ieronimos, Arcebispo de Atenas e da Grécia, o chefe máximo da Igreja Ortodoxa neste país.
Definição de violência 2
Amanhã haverá outra manifestação em Atenas. É um protesto e uma lembrança. Husein Zahidul tinha 24 anos e era imigrante. Na Grécia, um imigrante que queira legalizar-se e ter os seus documentos não vai ao registo civil ou a um Ministério, como as outras pessoas. Tem de fazê-lo na polícia e só durante um dia por semana – o sábado. Os imigrantes costumam ir para lá na véspera e passar lá a noite. É também na polícia que os imigrantes clandestinos são detidos. E, frequentemente, vítimas de negligência e de violência. A Grécia recebe milhares de imigrantes vindos dos Balcãs, do Iraque, do Afeganistão, do Paquistão e de outros países. A maior parte deles está ilegal. A Grécia é ainda, e como a Amnistia Internacional tem chamado a atenção, o país da Europa que concede menos estatutos de refugiado. Entre 2003 e 2006, 40 mil pessoas pediram aqui asilo. Só 410 foram reconhecidos como tal.
Husein não estará amanhã na rua connosco. Morreu no sábado passado, 3 de Janeiro. Foi encontrado numa vala, antigo leito de um rio que já não existe e que fica em frente da esquadra da polícia. A polícia, essa, diz que foi ele que se atirou. É o terceiro nos últimos meses.
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